Quinta-feira, Janeiro 06, 2005
13. ONDE GUARDEI OS MEUS BRINQUEDOS ...
"Sabe o que é? ... eu não estou preparado ..."
Sempre a mesma história.
Ela chora ...
Noventa e sete.
Na semana anterior tinham ido ao teatro. Foram ver Shakespeare, "Muito barulho por nada". Voltaram de metrô.
"E quanto a ele?", pergunta Marcos.
'"Vou ligar pra ele hoje ... acho melhor a gente terminar"
O silêncio de Marcos equivale a sua aprovação, ou indiferença ... como saber?
Quis beijá-la, mas ela não deixou. Sua boca desviava de seu beijo. Parecia que todo o vagão os observava. Por um breve instante, sentiu um esboço de ternura por aquela ingenuidade. Nada que tenha durado muito.
Voltou para casa sozinho naquela noite. Sentia-se sempre só nessas ocasiões. E triste. Sabia que o momento da retirada havia chegado. Não lhe causava pouco pesar. Seria até mesmo capaz de chorar.
No dia seguinte comprou quarenta balas para o seu trinta e oito.
"Vai fazer um estrago, amigo!", brincou o vendedor.
"Só vou usar uma"
Ao chegar em casa limpou a arma. Se pudesse a teria engraxado como o melhor dos seus sapatos, o de festa. Pensou no buraco que a bala lhe abriria. Tinha decidido que seria na cabeça. Queria que o buraco fosse grande o bastante para que coubesse ali cem mulheres, todos seus sonhos e frustrações, toda sua angústia.
"Nada faz sentido, nada"
Seria a morte libertadora? Seu maior medo é que na morte sua memória fosse preservada.
Naquela noite teve um pesadelo. Estava num trem rumo a Central. Cheio, cheio demais. Nele estavam todas as pessoas que não via faz tempo. E todas olhavam para ele, mas nada falavam. A estação, porém, nunca chegava. E o trem continuava a andar e andar, indefinidamente. Queria sair, mas não podia. Sentia que aquela era sua casa.
Ao acordar, chorou e sussurrou "mãe, sinto tanto sua falta", e se encolheu até sumir.
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9:29 PM
Quarta-feira, Outubro 13, 2004
12. Esta é uma história de ódio
"Esta é uma história de ódio. Muito ódio que eu sinto daquela mulher.
Passados tantos anos, ainda a odeio como no primeiro dia.
Eu a odeio. Eu a odeio.
Nada foi o que era antes. Nada jamais será como foi antes.
Eu a odeio.
Não tenho outras palavras."
Ah, querido leitor, não queria que você se assustasse ou desprezasse este homem.
Jamais devemos julgar um homem por um momento da sua vida. O homem é homem na história. É na história de sua vida que se forma sua humanidade. Somente quando vemos o todo é que podemos entendê-lo.
Ele não era, nem nunca foi, mau.
O casal foi passar lua-de-mel em Búzios numa pousada à beira-mar. O tempo frio e a água gelada não impediram a magia daquele momento.
A viagem foi cansativa. As forças, sugadas pela cerimônia, ainda não haviam sido recuperadas. No dia anterior à festa, ele havia trabalhado. Muito como sempre. Nunca havia trabalhado tanto quanto naquele ano. Pediu empréstimo no banco. Fez hora extra. Seu tornozelo - nunca recuperado de uma fratura, na infância - estava duas vezes o tamanho normal, pelo rigor da labuta. Naquela tarde, não havia mais forças para ele.
Ela não trabalhava; nunca trabalhou, com exceção de umas poucas semanas na adolescência quando foi babá.
Enquanto o marido descansava, foi tomar sol na piscina. A baixa temporada deixava o hotel vazio. Lá conheceu alguém - dez anos mais velho que o esposo, talvez - e conversaram.
Naquela noite, foi até o quarto do homem e trepou com ele. O andar inteiro e a recepção escutou os seus gemidos.
Durante o jantar do outro dia, reclamou com o esposo que "aquele homem mal encarado" não parava de olhar para ela. Sua reação de marido foi encará-lo com austeridade durante algum tempo. O homem deu uma risada discreta para um amigo e foi embora.
No dia seguinte, ao acordar, não encontrou sua mulher na cama. Ficou ansioso. Correu até a porta. A chave não estava lá. Trancado. Abriu a janela. De lá viu a esposa conversando com o mesmo sujeito da noite anterior junto à entrada do salão social.
Ela olha para a janela. Sorri. Vai até ele. O sujeito vai embora.
"Bom dia, amor. Acordou ?", ele pergunta.
"O que ele tava falando contigo ?".
"Nada, só queria saber como faz pra chegar no Centro".
"E foi perguntar pra você, por quê ?".
"Só eu tinha acordado".
"Não quero você falando com esse cara, não".
"Tá bom, amor".
Beijaram-se.
Ela era uma mulher notável. Sua beleza voluptuosa ela aliada a uma expressão de candura tão angelical que não havia como não se encantar ou deixar de acreditar em sua figura. Quem não acreditaria num anjo ? Quem não de derreteria diante dessa ninfa versada na arte de convencer ?
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5:53 PM
11. Deixo-lhe as rosas, mas que bobagem os shoppings não falam; simplesmente os shoppings exalam a melancolia e a solidão que roubam de ti
O dia seguinte era um sábado. Márcio só foi notá-lo à caminho do trabalho.
Presidente Vargas quase deserta.
Rio Branco com um estranho ar de fim de festa.
Deixou o carro na México.
Como é belo e estranho o Centro da cidade no sábado. Não é difícil se sentir em algum daqueles filmes de ficção-científica onde uma catástrofe não deixa sobreviventes, a não ser o herói.
Será tão diferente assim da realidade ?
A catástrofe ocorrera. Só que o herói está muito cansado para pensar em alguma solução heróica. O herói se sente terrivelmente só.
Traz consigo um livro. Mesmo sabendo que não vai lê-lo. Precisa da sua companhia. Eça de Queirós.
Ele anda. Anda por toda a manhã.
Sente fome. Volta pro carro. Vai ao Rio Sul. Caminha. Vaga. Arrasta-se por vitrines, corredores. Passa a tarde observando as pessoas. Tantas vidas. Tantas histórias.
Sentia uma forte esperança de lá encontrar um amigo. Desabafar. Chorar.
Sentado sozinho na praça de alimentação já abandonava a idéia do amigo para se encantar com a possibilidade de conversar com uma pessoa estranha. Alguém veria seu olhar profundo e triste.
"Tudo bem com você ? Aconteceu alguma coisa ?"
Ou quem sabe ...
"Posso ajudar ?"
Poderia ser um senhor. Um velho e sábio senhor de cabelos brancos, solícito e inteligente. Ou, quem sabe, uma linda e jovem moça, com o coração tranbordante de fraternidade e carinho.
Conversaríam, então, até o lugar fechar. Despediríam-se e , ao voltar pra casa, pareceria que apesar de tudo ser humano vale a pena.
Quando a noite desponta, percebe que os olhares que recebia não eram de admiração, nem de compaixão, mas de raiva por estar ocupando sozinho uma mesa onde caberiam quatro.
Levanta-se de lá. Comprar alguma coisa sempre lhe aliviava o coração. Compra, então, dois cd's : Cartola e o último do Radiohead. Quem sabe uma gravata ...
Não. A consciência de estar só agora o esmagava. Sentia-se um inseto. O que carregava agora no peito não era uma dor ou mera angústia, mas toda a tristeza do mundo.
Como se um saco cobrisse a cabeça, tentava respirar, mas não podia. E o medo não era de morrer sufocado, mas de não morrer.
Sentia medo. Muito medo. Lembrou de quando era uma criança. Medo trazia frio, o frio que congela a alma. Sentia vontade de deitar em algum cantinho e se encolher.
Não queria voltar para aquele apartamento.
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5:46 PM
Terça-feira, Outubro 12, 2004
10. Às vezes, eu acho que nada faz sentido ...
Velhas sensações. Amigas de guerra. Acompanhantes na enésima jornada pelas ruas da cidade noturna.
Velhas visitações. Velhos passeios. A luz alaranjada da noite carioca. O cansaço das ruas escuras da podridão do Centro da cidade.
Quem seria capaz de flutuar da Praça Tiradentes até a Lapa, rodopiar da Carioca à Cinelândia, deslizar do aterro até a Glória e depois parar na Barata Ribeiro ? Na noite da semana ?
Vitor era. Fazia tudo isso olhando nos olhos de todas as putas e travestis, bêbados e mendigos, cada canto fedorento, mijado e cagado da cidade maravilhosa.
"Às vezes, eu acho que nada faz sentido. Tudo é o mais completo absurdo."
Nos corpos das biscates e quase-mulheres se excitava ... conversava, sempre, sentia-se enojado, quase sempre, doente, sempre. Partia sem explicações.
Seu tesão aumentava na proporção que seus pés doíam. Uma febre o impelia a andar cada vez mais e mais rápido. Naqueles instantes, semanais, era um homem, escravo de seu pau, um homem, quase feliz. Os pés sangravam. O lugar de destino sempre era algum motel de segunda categoria.
A qualidade da puta era determinada pela proximidade do dia do ordenado. Dias de muito, internet; dias de pouco, vagabunda de rua.
No início, quando os vinte anos se aproximavam e começavam a se afastar, nosso herói ainda conseguia um pouco de prazer. Dava tempo de colocar a camisinha e dar umas vinte e sete estocadas. Agora, conformado, não consegue uma ereção satisfatória. A camisinha não entra mais. Quando muito, uma punheta em terça ereção e uma gozada dois minutos depois.
Certa vez, cumpriu uma fantasia. Ligou para uma quase mulher, da internet, e marcou num motel. Sua feminilidade voluptuosa, a voz rouca, o atraíram. Ao chegar lá e olhar nos seus olhos e no volume da sua calcinha, disse ter esquecido o celular no carro, pagou adiantado e foi embora. Dois dias sem comer foi o preço extra, além das duas horas acertadas.
Na hora da conta do quarto, vinha o desespero, contido. Medo. Angústia. Tristeza. Angst.
O que será que será que dá dentro da gente e não devia
Uma tempestade de "sei lá". Milhões de desculpas e argumentos surgindo como uma ventania de chuva de verão. Disparada de sentimentos confusos e conflitos lhe comprimiam o estômago como nem mil e quinhentas abdominais o fariam.
"Onde está Deus ?"
Caro leitor, perdoa-me o comentário, mas, como autor, não consigo entender o que leva alguém a fazer uma pergunta dessas na hora de pagar a conta de um motel tendo por companheira uma desconhecida. Também, e o que é pior, não consigo entender por que não o faria. Sabe o que é pior, prezado leitor ? Se eu contar você não vai acreditar. Imagine. A pergunta não era feita para os miolinhos do seu cérebro. Perguntava pro garçom. Garçom ?! Por acaso motel é restaurante pre ter garçom ? Bem, um cara de terninho branco e gravata borboleta preta que entra depois de tocar a campainha e espera gorjeta sem ter tido trabalho nenhum além de oferecer café requentado em xícara branquinha.
"Onde está Deus ?"
Vitor é o nome dele.
Devemos culpá-lo ?
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10:01 AM
Sexta-feira, Setembro 17, 2004
9. Você não é daqui !
"Você não é daqui !", disse Marcos.
"Não", respondeu ela, "como é que você sabe ?".
"O sotaque".
"Ah".
"Você é mineira ?".
"Não. Adivinha...".
"Hmmm, gaúcha ?".
"Não".
"Capixaba ?".
"Não".
"Paulista ?".
"Acertou".
"É, que legal, tá a quanto tempo no Rio ?".
"Quatro meses".
"Veio trabalhar ou estudar ?".
"Os dois. Eu trabalho com a minha prima e faço fisioterapia na faculdade".
"Tá gostando do Rio ... qual o seu nome ?".
"Mariana".
"Mariana, Marcos ... prazer ... tá gostando ?".
"Tô ... eu sinto falta de lá, mas aqui também é muito bom".
"Aqui é melhor. Rio é Rio".
"Ah, não é mesmo ... e, além do mais, meus pais, meus amigos estão lá ... meu namorado ...".
"Seu namorado tá lá ?".
"Tá".
"Dá certo isso ?".
"Mais ou menos".
"Eu acho meio estranho ... a distância ...".
"É, mas a gente tá sempre se falando ... não é a mesma coisa, né", ri.
"Você deve se sentir meio sozinha, né, de vez em quando ?".
"É".
Marcos saiu a caça da noventa e sete. Ela era uma baixinha de cabelos castanhos claros, aparelho no dente, mas de corpo bonito. Longe da perfeição. Ele nunca buscou perfeição.
Os anos de experiência o fizeram estudioso do comportamento feminino. Sabia dizer a palavra certa na hora certa, o olhar certo na hora certa. Não havia muralha que não encontrasse brechas. Sempre as achava. Seu olhar clínico precisava de apenas alguns minutos para concluir se o produto era acessível ou não.
Em uma década de carreira, casadas, noivas, desquitadas, divorciadas, louras, morenas, mulatas, japonesas, altas, baixas, novas, experientes, noventa e sei mulheres, nenhum fracasso. Cada uma devidamente seduzida. Cada uma tinha sua própria rede de estratégias. Cada uma deixada para trás.
Noventa e seis seres humanos com suas manias, seu jeito único. Cada uma tratada como única na face da terra. Sempre o mesmo Marcos.
"Eu sei que sou um crápula. Não nego".
Nem todas levou para cama.
"Eu preciso disso".
Todas se apaixonaram.
"Nunca fiz promessas a nenhuma delas".
A maioria jamais o esqueceu.
"Nunca menti a nenhuma delas".
Uma se matou.
"Não tive culpa. Não sabia que ela sofria de depressão. Além do mais, a gente não transou ... não transou muito ... só uma vez".
Seu telefone foi trocado trinte e sete vezes.
"Nunca comi virgem. É maldade".
A arma saiu do fundo da última gaveta do lado esquerdo do guarda-roupa para a mesa de cabeceira.
"Nunca fui grosseiro. Simplesmente sumia".
Quando se dava por satisfeito dizia que não estava preparado para aquilo.
"Não estava mesmo".
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3:42 PM
8. Falo, sim, falo, para não morrer, esta noite, esta noite
"Amei como jamais alguém amou uma mulher ordinária.
Quando chegamos da lua-de-mel, as pessoas paravam, para olhar em nós a felicidade. Nossos olhos brilhavam de clichês, doçuram monótonas e repetitivas. Nossos corpos eram como peças de quebra-cabeças que se encaixavam na perfeição.
Aquele casamento foi a festa mais linda que houve. Poucos não choraram. Muitos, ao olharem o tamanho daquele amorzinho, recuperaram as esperanças já tão bem enterradas em seus sótãos e jardins.
Eu a esperava ansioso. No meio do caminho florido daquela igreja, rumo ao altar, a vi chorar. Sim, tenho certeza. A maquiagem borrada.
Ah, quais versos poderiam expressar a grandeza daquele sentimento ? Haveria, no mundo, tal poeta ?
Ela cantou. Cantou pra mim. É, alguma canção sentimental : ¿o que Deus uniu, não poderá jamais o homems separar.¿ Porra nenhuma !
Trocamos alianças e lemos juntos I Coríntios 13. Parecia que uma tropa angelical pairava no ar a nos prestigiar.
O beijo. Talvea tenha sido o mais longo e apaixonado que se tem notícia.
Aquela lua-de-mel.
Ah, tanto amor ..."
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3:19 PM
Quarta-feira, Agosto 25, 2004
7. Silencioso e branco como a bruma
Amanheceu o dia. O trabalho chegava quase ao fim. O sono não era amigo de Márcio. O espreguiçar-se, sim. Ele se espreguiçava o dia todo, mas não dormia, quase. O corpo doía. Seu corpo magro sempre doía.
Tomou banho. Arrumou a pasta. Tomou a sexta caneca de café. Estômago já ardia. Não tinha fome. Andou por todo o apartamento. Uma, duas, três vezes.
A cama arrumada lhe causou uma breve sensação de angústia. Pôs o terno. Saiu. Trabalhou muito, como sempre. Almoçou neste dia.
Algo esquisito parecia acontecer. Todas as vezes que percisou usar o computador - grande amigo, o melhor - lhe vinha um branco na mente. As letras e os símbolos pareciam trocar de lugar o tempo todo. Marcou oftalmologista.
Ao voltar para casa, no elevador, viu-se em "Ascensor para o cadafalso". Então, teve consciência de que seus olhos realmente não estavam no melhor da forma. Rebelavam-se. Tendiam para baixo. Pesavam. Ardiam. Talvez conjuntivite.
Entrando em seu apartamento, olhou para os lados. Tirou o terno. Sentou na cama. Ligou a TV. Desligou. Fitou a mesa de cabeceira. Viu o retrato. Aquele retrato. Ligou novamente a TV. Assistiu ao noticiário. Levantou-se. Tomou banho. Separou uma lasanha congelada para o jantar. Microondas. Voltou para a cama.
Cochilou. Meio acordado, meio morto, sentiu cheiro de molho branco queimado.
A porta do guarda-roupas, aberta.
Cabides magros, solitários.
Márcio dormiu, aquela noite. Nu. No chão.
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5:05 PM
6. Hoje eu acordei tão estranho ... o que você faria se só te restasse um dia ?
"Não são poucas as vezes que me sinto algemado à uma conspiração do Todo-Poderoso. Nem poucos meus calafrios e tremores. Aquela sensação de que tudo coopera pro meu infortúnio. Uma decisão cósmica.
Neste dia do meu aniversário acordei tão estranho. Acho que eu não sou daqui.
Sou um turista. Um estranho estrangeiro numa terra distante, sem mapa, sem língua.
Não entendo como vêem. Não entendo como sentem. Não entendo o que dizem. Do que riem ? O que fazem ? Preciso ... preciso ... de ajuda."
Esses pensamentos deslizavam pela cabeça de Vitor naquele puteiro.
"Puteiro, não. Eu não sou um pervertido sexual. Não gosto de putas. São garotas de programa. Meninas safadinhas. Agências de encontros !"
Talvez esta tenha sido a única vez que ele não tenha saído de um ... de uma agência de encontros sem desabar no próximo quarteirão, sentar no meio-fio e pensar na morte.
A consciência não estava totalmente tranqüila, mas algo naquela mulher o deixou abalado. Em primeiro lugar, seu tipo de beleza não era comum para um lugar daqueles. Segundo, Vitor via nela, ainda, gotas de pureza.
O celular estava desligado, de propósito. Começava a enésima caminhada para casa. Andava muito. Horas, quilômetros. Parava quando os calos estouravam e os joelhos estalavam.
Provavelmente, algumas pessoas o estariam procurando. Poucas. Hoje, não queria ver nem falar com ninguém. Queria apenas andar, muito.
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4:51 PM
Terça-feira, Agosto 17, 2004
5. Sobre o velho plano
Seu corpo estava exausto. A mente, porém, trabalhava, muito. Engrenagem de produção. Constante. Indiferente. Cruel.
Já fazia um ano que pensava haver vencido o inimigo. Aquela visão o trouxe de volta.
Só o que conseguia fazer era olhar, da sua cama encostada na parede, para o céu escuro daquela noite estranha.
Será que um ano não se passou ? Será que o tempo foi engolido por um buraco negro de um espaço sentimental numa via dolorosa de algum universo de infinitos cinzentos e confusos ?
O inferno havia novamente aberto suas comportas e liberado legiões de velhos fantasmas. Temidos demônios.
A noite passou num delírio febril. O lençol já havia perdido terreno para o colchão nu, velho e encardido.
Quase irracional, deflora a madrugada. Acende a luz. Abre o guarda-roupas. Tira de lá algumas velhas caixas de sapato. Dentro delas, velhos papéis, velhas revistas, velhas fotografias, algumas notas e o maldito caderninho preto.
Um misto de satisfação e horror o invadiu. Ali estava ele. Não havia mais saída. Morreu ali o fio de esperança de que ele tivesse se desintegrado.
Na verdade, era o quarto caderninho.
O primeiro foi deixado num ônibus há dez anos passados. Puro desperdício. Não tinha ainda tantas informações que não pudessem ser novamente reunidas através de velhos guardanapos manchados de batom e por um razoável trabalho de memória.
O segundo, esquecido dentro de uma calça jeans enviada pra lavadora de roupas. As páginas, porém, não ficaram tão grudadas assim e a caneta era bandida o suficiente para arranhar o papel mais que soltar tinta.
O terceiro, rasgado num acesso de culpa, seguido da mais cuidadosa faxina já feita por um homem para reconstruir parte da sua vida rasgada em pedaços, espalhada na poeira.
O preto era o quarto caderninho. Como reencontrar o velho amigo cujo sucesso era prova do seu fracasso. Fedido a traça. Amassado. Completo.
Cada página. Cada rasura. Cada anotação hesitante. Pedaços da sua existência de quase trinta anos. A história do seu caminho, de como se tornou o que é.
Cada página, um número e uma lufada de anotações. Sem nomes.
A partir do sessenta, nem números mais havia, apenas anotações. Cada vea mais curtas e diretas.
"Burra."
"Burra e piranha."
"Oferecida demais."
"Casada."
"Paraíba."
"Muito velha."
Marcos se lembrava de cada feição. De cada detalhe. E também do velho plano. Diabo velho que o acompanha por muitos anos como esposa fiel.
Havia chegado o momento.
A contagem tinha que ser feita. Honestamente, algo lhe dizia que o fim chegava.
Setenta.
Oitenta.
Noventa e dois. E três.
Pausa para respirar.
Quatro, Cinco. Seis.
Noventa e seis. Quatro para cem.
Decidiu Marcos, há muitos anos atrás, tentar amar até a número cem. Caso não conseguisse, selaria seu fracasso com um tiro na cabeça.
Estava plenamente disposto e preparado para fazê-lo.
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5:42 PM
Maldito é o dia em que entrei naquele carro
Maldito é o dia em que entrei naquele carro. Por que entrei naquele carro? Tudo seria diferente.
Lá estávamos nós indo para o aniversário da aniversariante que não existe. Bebíamos e comíamos em tua homenagem. Comemorávamos teu aniversário na tua ausência.
Assim te conheci, ausente. Assim te conheço, hoje. Assim sempre te conhecerei... minha presente ausente, a quem dedico todo meu amor.
Eu a conheci quando não a conhecia. Eu a conheci no dia de seu aniversário de não sabia quantos anos ... e bebi com meus amigos à tua ausência. Era uma noite de algum dia da semana em que fomos comemorar qualquer coisa junto com um de nossos professores da faculdade. Era o teu aniversário.
Chegastes no fim da noite, quando já tínhamos esquecido naquele bar ou restaurante o que fazíamos. Bebíamos por ti e não importava tua ausência.
Quando te vi, imediatamente te amei. Não me peça explicações para isto. Simplesmente te amei como a metade que me foi arrancada e que ainda sinto. Sem pedir nada em troca, tive a certeza de que teríamos uma história.
O que mais me intriga é que nunca foste a mais bonita. Nunca foste a mais charmosa. Nunca foste a mais sexual. Nunca foste aquela que me atrairia particularmente. Mas foste tu que arruinaste todo o meu ideal. Tu mudaste meu mundo com teu olhar. E quando te vi senti tanta falta de ti. O que me esmagou mesmo foi a imensa saudade que senti de ti quando te conheci, toda a saudade que há no mundo.
Minha vida é reviver aquele momento. Achei que tu me olhaste de um modo especial. Não. Apenas Deus desceu entre os homens e o conheci cara a cara. Com ele tomei uma cerveja, como meu bom e velho amigo.
Na toalha de papel da mesa de bar, entorpecido pelo álcool, escrevi um poema do qual não lembro nenhuma palavra. Sei que alguém o pegou e o pôs no bolso. Quem o fez? Não sei. Sei que minha busca é encontrá-lo novamente porque ali expressei em palavras o verdadeiro sentido do amor. Meu poema molhado do suor do meu copo de cerveja como meu cálice da última ceia, meu graal boêmio, é minha busca.
Teu nome, Mariana. Tatuado no meu peito. E nem sei se realmente existes.
Este é o começo da nossa história, que não existe.
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5:09 PM
Domingo, Agosto 15, 2004
3. Sobre o fim daquele casamento
"Eu estou deixando você."
Foi assim que chegou ao fim aquela angustiada e confusa viagem de nove anos que foi aquele casamento.
"Por quê ?", retrucou o marido.
"Eu preciso me conhecer melhor", respondeu a esposa.
"Tá bem."
Carolina partiu, enfim, depois deste diálogo. Ele continuou o trabalho que deveria apresentar na semana seguinte.
Não se sentiu sozinho naquela noite, acompanhado de sua cafeteira elétrica e o mouse ótico.
Márcio é um homem que sempre se gabou de nunca ter tido preocupação alguma com sua aparência. Na verdade, era feio e desarrumado. Sua aparência escrota não retratava, porém, o tamanho do seu gênio intelectuaç.
Aos dezesseis, faculdade de economia. Aos vinte e poucos, uma das maiores instituições financeiras do país. Aos vinte e sete, cobrava uma fortuna por consultoria e escrevia para as revistas masi badaladas na área de negócios. Seu próximo projeto : livro de auto-ajuda para aspirantes ao sucesso. O título seria : "Como enfrentar seus medos e chegar rápido ao sucesso", mas já havia um com esse título. Então, "Como enfrentar o temor e vencer rápido na vida" seria o título.
O casal se encontrou quando Márcio terminava o curso de economia. Ela tinha dezessete. Ele, vinte.
Carolina já era uma linda mulher. Linda e tímida. Muito tímida. Sua criação evangélica pentecostal não a apresentou ao mundo. Márcio o fez.
Nele, ela descobriu o cinema, as artes, o chegar tarde em casa, o sabor do vinho, a liberdade dos trajes e a internet.
Atraído por sua pureza casta e apoiado por uma rápida ascensão profissional, o casal contraiu matrimônio.
E em nove anos, divórcio.
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4:28 PM
2. Trinta anos
Trinta anos. Faltava apenas um para Vitor chegar lá. Isso o apavorava.
Aquele número ecoava na sua cabeça como um sino. Não o da idade, mas o daquele telefone.
O local era um sobrado, mas tinha boa aparência.
"Quanto é ?", perguntou ele.
"Sessenta uma, cem duas", respondeu a moça.
"Uma, duas, o quê ?"
"Horas, amorzinho"
A porta do quarto fechou.
"Eu só quero conversar. Por favor, não tira a roupa.
"Tá bom, gatinho. Cê que sabe."
"Você é muito bonita. Qual o seu nome ?"
"Pamela."
"Não, fala sério. Seu nome mesmo."
"Débora ... morreu aqui."
"Tudo bem, Débora. Meu nome é Vítor. Prazer te conhecer."
"Prazer."
"Sabe, fiquei encantado com você."
"Ah, obrigado."
"Você é um pouco tímida, não é ?"
"Não, por quê ?"
"É, sim. Sabe, por quê ? Você olha para baixo quando ri."
"Não sou muito tímida, não."
"Tá bom, vou acreditar."
"Realmente, fiquei encantado por você", num tom quase emocionado.
"Você tem namorado ?"
"Não."
"Não acredito. Sério ?"
"Sério. Eu terminei um namoro de três anos faz dois meses."
"E o seu namorado, sabia ?"
"Não, eu ainda não tava aqui."
"Você não tá aqui há muito tempo, né ?"
"Não, três semanas e alguns dias."
"Você tem quantos anos, Débora ?"
"Pamela."
"Tá bom."
"Dezenove."
"Você é do Rio ?"
"Sou."
"Não parece."
"É, ninguém, acredita."
"Você tem um jeitinho meigo ... de mineira."
"Ah, fala sério."
"Por que você tá aqui, Débora ? Você não tem cara de quem tá aqui por necessidade."
"Não. É legal. Diferente. Eu trabalhava. Trabalhei mais de dois anos numa empresa. Era secretária. Ganhava bem. Enjoei e pedi as contas."
"Por que logo aqui ?"
"Tô afim de juntar uma grana. Pagar meus estudos."
"O que é que você quer fazer ?"
"Direito."
"Direito é bom."
"E você ? Fala um pouco de você."
"Hoje eu faço 29 anos."
"Que legal. Meus parabéns."
Ela beija Vitor na boca. Os dois se abraçam e ficam assim por pelos dez minutos. Param e se afastam.
"Por que você fez isso, Débora ? Foi um belo presente de aniversário."
"Não foi por causa do seu aniversário ... eu gostei de você. Você é legal."
"Eu também ... sabe ... não ... deixa pra lá ..."
"Que foi ? Pode falar."
"Não ... vou continuar ... sou solteiro ... químico ... trabalho numa multinacional ... moro com a minha mãe."
"Deve ganhar bem."
"Não ganho o que merecia pelo tanto que trabalho."
"Débora, você costuma beijar os clientes ?"
"Nunca beijei nenhum."
"Foi ótimo te beijar. Por que eu fui escolhido ?"
"Você é diferente. É educado. Carinhoso."
"Você também faz meu tipo ... você é linda, sabe ..."
"Agora eu tô ficandos em graça."
"Não, fica não ... Você gostava desse seu ex-namorado ?"
"No início, sim ... depois, esfriou."
"Esfriou, por quê ?"
"Ah, não sei."
"Rolou traição ?"
"Dele, eu não sei ... eu era apaixonada pelo melhor amigo dele ... fiquei um ano saindo com o cara, direto ... faltava a escola ... não sei nem como é que eu consegui passar de ano ... só Deus mesmo ..."
"E ele não descobriu ?"
"Não."
"Caramba."
"Nem sei mais de nenhum dos dois."
"Você mora aqui ?"
"Moro."
"É legal ?"
"É. As meninas ficam conversando direto, rindo, é bom. Eu me divirto. No início, eu não gostei. Perdi três quilos. Não conseguia comer nada. Agora eu jé recuperei."
"Morava com seus pais ?"
"Morava."
"Sabe o que me intriga. Você tem cara de menina de família."
"Eu sou de família."
"Dá pra perceber."
"Eu só fico triste com uma coisa."
"O quê ?"
"Esquece."
"Não, fala ..."
"Tá bom. Queria ter te conhecido em outras circunstâncias. Queria ter te encontrado na rua ou num restaurante. Perguntar seu nome. Pedir seu telefone."
"É. Que pena."
"A vida é um moinho ... o que é que você gosta de fazer ?"
"Eu gosto de dançar ... ir a praia ..."
"Quando é que você folga ?"
"Só domingo."
Silêncio seguido de um beijo apaixonado.
"Estranho", suspira Débora.
"O que foi ?", responde Vitor, sorrindo.
"Isso nunca me aconteceu."
"O quê ?", ri.
"Isso."
"O quê ?"
"Eu tô encharcada ... transa comigo ... fica duas horas."
"Não sei. Só tô com grana pra uma. Só se eu pagar em cheque."
"A gente não aceita cheque ... dá muito problema."
"Que pena."
"Ah, não. Pra você vale."
Débora pula em cima de Vitor por quase uma hora fazem um amor cheio de carinho, elogios e paixão.
"Foi maravilhoso. Você tem certeza que não tem namorada ?"
"Já tive. Ela me largou."
"Ela é maluca de te largar assim. Se você fosse meu namorado, eu ia querer fazer amor contigo o tempo todo."
Vitor ri.
"Adorei te conhecer."
"Sabe ... eu nunca tive um cliente como você ... a maioria é tão sem graça ... todos, pra ser sincera ... é só eu tirar a roupa e pagar um boquete de camisinha e ... pruhhhhh .... acabou ... vão embora .... tesão, gostosa, vagabunda, safada, piranha, e vão embora ... você é diferente."
"Como eu queria ter conhecido você em outra situação."
"É."
"Posso te pedir uma coisa ?"
"Pode."
"Não me chama de cliente, não."
"Tá bom."
"Se eu te chamasse pra sair você iria ?"
"Ia, sim."
"Sério ?"
"Sério."
"Eu vou te chamar."
"Tá bom ... é ... queria te dizer ... eu tenho vinte ... só entre a gente, tá ? ... que loucura ... Se eu contar ninguém acredita ... tá em cima da hora ... vamos tomar um banho juntos ..."
"Vamos."
Tomam banho em delicadezas.
"Quanto é ?"
"100"
"Vou pagar 60 em dinheiro e 40 no cheque, tá ?"
"Tá bom."
"Presta atenção ... aqui, nesse cheque, tá o meu telefone, Entedeu, né ?"
"Entendi."
"Me dá o seu."
"Não adianta eu te dar porque ele não pega aqui. Eu te ligo."
"Liga mesmo ?"
"Ligo."
"Eu vou te esperar, então ..."
"Pode esperar."
"Hoje foi um dia muito especial pra mim."
"Pra mim também ... e como..."
"Tenho que ir, né ?"
"É."
"Tchau, gatinha. Até breve."
"Tchau, gato."
A porta se fecha.
Espero não te despontar, caro leitor. Ela nunca ligou.
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posted by vinicius |
3:46 PM
Terça-feira, Agosto 10, 2004
1. Bate outra vez com esperanças o meu coração
Sexta-feira. Toda sexta, ele ia ao cinema. Seu nome é Marcos. Ir ao cinema era sua única disciplina religiosa.
Pensava, no caminho, sempre nas mesmas coisas. Saía do trabalho com o mau-humor e a frustração acumulada da semana. Esperava o mesmo sinal abrir. O mesmo sinal, que sempre estava fechado. Olhava para todos os lados. Procurava por alguém que nunca estava lá. Então, dissecava cada mulher. Cada uma um olhar. Parava ao seu lado. Parava por parar. Olhava de novo. O sinal abria. Atravessava. Passava na mesma banca de jornal perguntar o mesmo preço do mesmo jornal mais vendido.
De lá ia à cafeteria. Como viver sem café ? É a oração do monge para o homem moderno. Sentava-se com seu expresso muito doce e procurava pelo filme do dia. Metrô. Vez ou outra, seus olhos deslizavam por cima da página do jornal a procurar.
Espaço Unibanco ou Estação Botafogo. Sexta-feira era dia do bom gosto.
Ele tinha um gosto refinado ... para quase tudo.
Com o horário era rigoroso. Nunca via filme começado. Jamais se esquecera que viu a segunda metade do Batman antes da primeira. Fora obrigado.
Faltava uma hora para a sessão começar. A espera não o tornava desgostoso. Aguardava com paciência. Namorava os vídeos do Estação.
Os funcionários já o conheciam de vista. Ele jamais permitia que qualquer coisa invadisse seu espaço sagrado nesses momentos. Nem as mulheres.
O filme era uma reapresentação de O invasor, do Beto Brant.
Adorou o filme. Saiu atônito e reflexivo como de costume. Na volta para casa, estava ainda mais absorto do que antes. Mundo externo não havia. O corpo já estava programado para levá-lo à casa. O sono aumentava.
Metrô até a Carioca. De lá ia para a Zona Norte, onde morava, sozinho. Dormia no caminho. Algo interviu, porém, na sua rotina, esta noite.
Carioca para a Rio Branco, onde se sentia terrivelmente à vontade.
A bala desgovernada lhe atravessa o peito.
De relance, cabelos ruivos escuros que não eram quaisquer, mas aqueles.
A visão entrava no velho ônibus amarelo.
Marcos parou. Não sabia o que fazer. A dúvida lhe comprimiu o estômago. Por um segundo, acho que ela o tivesse visto. Mas, afinal, seria ela ? A certeza veio no atravessar a roleta. Era ela.
Parado ele ficou na Rio Branco dez da noite por dez minutos levando dez esbarrões, pálido a observar o ônibus amarelo se afastar até sumir. Tudo estava de volta : o velho plano. Os velhos números. O velho desespero.
Era a número 1.
Deixe-me ir, preciso andar,
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
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posted by vinicius |
7:17 PM
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